O recém-lançado Crédito do Trabalhador, a nova modalidade de consignado para quem tem carteira de trabalho assinada ou é MEI, promete uma verdadeira revolução no mercado de empréstimos. Através dele, o trabalhador poderá contratar crédito com parcelas descontadas diretamente na folha de pagamentos, ao limite de 35% do salário.
O modelo permite transformar em garantia a multa rescisória em caso de demissão, a renda futura do trabalho e 10% do saldo do FGTS, o que reduz a inadimplência nessa modalidade de empréstimo. Com menos riscos para quem empresta, o custo do crédito —isto é, a taxa de juros— também fica menor.
Além disso, a forma de solicitação de crédito —em plataforma única do governo e submetida simultaneamente a todas as instituições financeiras— aumenta a competição nesse mercado, o que se traduz em condições mais favoráveis nos empréstimos concedidos pelos bancos aos trabalhadores.
Há um enorme espaço para tornar o crédito ao trabalhador mais barato. Hoje, um empréstimo de R$ 100 via crédito pessoal não consignado implica o pagamento de R$ 200 daqui a um ano. Se a concessão se der através do rotativo do cartão, serão R$ 546 em um ano. A título de comparação, o pagamento da mesma dívida no já existente consignado privado é de R$ 141 em igual período.
Isso não significa dizer que os juros no crédito do trabalhador irão alcançar patamares tão baixos quanto os que vigoram no atual consignado privado. Nele, as concessões dependem de acordos bilaterais entre bancos e empresas, que são mais fáceis de serem firmados por empresas maiores, mas que também costumam pagar maiores salários e recrutar trabalhadores de maior escolaridade.
É nesse sentido que o atual consignado privado pode ser visto como empréstimo de maior qualidade, ou de menor inadimplência, em comparação aos contratos que serão firmados no novo Crédito do Trabalhador. De toda forma, ainda é esperado que o aumento da competição entre os bancos e as novas garantias mais que compensem esse primeiro efeito.
No entanto, nem tudo o que é estruturalmente bom faz sentido em qualquer momento do tempo. Não restam dúvidas de que essa é uma medida que promete taxas de juros mais baixas nos empréstimos contratados pelos trabalhadores. Além disso, a expansão do crédito nessa modalidade —com juros mais aderentes aos movimentos da taxa básica da economia— aumenta a potência da política monetária. Mas a conjuntura atual é particular.
As expansões fiscais dos últimos anos foram expressivas, e a economia cresceu acima das expectativas de mercado por quatro anos consecutivos. A atividade continua resiliente, com mercado de trabalho dinâmico, e a inflação, bem acima da meta. No atual ciclo, a política monetária é restritiva e espera-se que traga desaceleração.
O Crédito do Trabalhador, ao contrário, representa uma nova rodada de estímulos. Seja através da substituição do crédito caro pelo barato, que libera renda para consumo, seja através da expansão de crédito para trabalhadores que não tinham acesso ao mercado de empréstimos, seus impactos sobre consumo e atividade podem ser expressivos. Apenas no seu primeiro dia de funcionamento, foram mais de 15 milhões de simulações de crédito.
Sua implementação na atual conjuntura vai na contramão do que é necessário para o controle da inflação e pode resultar em uma política monetária ainda mais restritiva em resposta a ela. É uma medida certa em momento duvidoso.
Na atual conjuntura, uma faseamento mais gradual do crédito ao trabalhador promete melhores resultados.
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