Uma guerra comercial desencadeada pelo presidente Donald Trump ao aplicar uma tarifa de 25% sobre todas as importações poderia causar um impacto de US$ 1,4 trilhão na economia mundial e aumentar dramaticamente os preços nos Estados Unidos, de acordo com um novo estudo que modela as consequências de uma espiral retaliatória.
A análise econométrica de um cenário de pior caso, onde os parceiros comerciais dos EUA revidam contra Washington, mostra que uma guerra comercial inspirada por Trump causaria uma ampla disrupção comercial, aumento de preços e queda nos padrões de vida.
O estudo realizado por economistas da Universidade de Aston, no Reino Unido, examina como uma retaliação tarifária força mudanças complexas no comércio global, começando na América do Norte entre os EUA, México e Canadá, antes de se espalhar para a Europa e depois para o resto do mundo.
Permanece altamente incerto em que nível Trump estabelecerá tarifas “recíprocas” nesta quarta-feira (2), no que ele chamou de “Dia da Libertação” —e como as nações e blocos comerciais afetados responderão.
Para descrever as potenciais consequências, o modelo examina seis cenários de escalada, usando dados de comércio bilateral de 132 países em 2023.
Embora algumas nações possam se beneficiar dos chamados efeitos de desvio de comércio à medida que os padrões comerciais mudam para evitar tarifas, os impactos gerais são negativos quando a guerra comercial se expande.
Jun Du, professora de economia na Universidade de Aston, disse que a modelagem mostrou que, se os países impusessem tarifas de 25% uns sobre os outros, teria efeitos semelhantes à guerra comercial de 1930 que aprofundou a Grande Depressão.
“Essas descobertas estão alinhadas com precedentes históricos como as tarifas Smoot-Hawley e conflitos comerciais modernos, ilustrando como o protecionismo corrói a competitividade, desorganiza cadeias de suprimentos e impõe custos desproporcionais aos consumidores”, escreveu ela.
No cenário hipotético em que a guerra é confinada ao Canadá, México e China respondendo com uma tarifa de 25% contra as tarifas impostas por Trump, todos os lados experimentam uma queda acentuada no comércio de mais de 30%.
A contração no comércio leva ao aumento da inflação e tem um impacto negativo no “bem-estar econômico”, medido em termos reais do PIB per capita. Mas os EUA sofrem menos do que o México e o Canadá, refletindo o equilíbrio de poder na relação econômica.
Nesse cenário, o impacto no bem-estar econômico dos EUA é previsto em 1,1% —em comparação com uma redução de 7% a 5%, respectivamente, para o México e o Canadá, com os efeitos negativos se desenrolando ao longo de cinco a dez anos.
Mas em uma guerra comercial global em grande escala, onde os parceiros retaliam para igualar as tarifas de Trump, os EUA experimentariam os piores efeitos inflacionários de qualquer nação, de acordo com a pesquisa.
Esse cenário causaria “disrupções significativas no comércio internacional e na atividade econômica”, alertou a análise, com as exportações dos EUA caindo mais de 43%.
Alguns países, como a Irlanda, que tem uma relação comercial estreita com os EUA que depende de cadeias de suprimentos altamente integradas usadas em produtos como os farmacêuticos, são considerados desproporcionalmente em risco.
Enquanto a Irlanda experimenta um pequeno aumento nas exportações e importações como resultado de uma guerra comercial limitada entre Canadá, México e EUA, esse ganho se transforma em uma queda de 6,6% nas exportações e quase 13% nas importações, no caso de uma guerra comercial EUA-UE.
Du disse que a base comercial menos diversificada da Irlanda em comparação com países maiores, que têm relações comerciais mais profundas com a China, a deixou mais vulnerável a ser “pega no fogo cruzado” entre as maiores economias do mundo.
Impactos semelhantes são esperados em grandes parceiros comerciais dos EUA, como a Coreia do Sul, que é especialmente dependente das exportações de automóveis.
A pesquisa também descobriu que o Reino Unido pós-Brexit tinha o potencial de aproveitar sua política comercial mais ágil fora da UE. Mas alertou que a ação unilateral do Reino Unido poderia “tensionar seu relacionamento” com Bruxelas e prejudicar as cadeias de suprimentos integradas UE-Reino Unido.
“O estudo reafirma que nenhuma economia emerge ilesa de escaladas tarifárias sistêmicas, à medida que espirais retaliatórias fraturam a cooperação multilateral e amplificam a instabilidade global”, concluiu Du.