O agronegócio brasileiro teme que as commodities agrícolas, como os grãos, o setor madeireiro, o etanol e o açúcar estejam na lista do tarifaço a ser anunciado nesta quarta-feira (2) pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e por isso afirmam que o projeto de lei da reciprocidade, em discussão no Congresso, funcione como um antídoto e o país tenha uma carga na manga para utilizá-la, se for necessária.
O primeiro dia do Cana Summit, evento promovido pela Orplana (Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil) no CICB (Centro Internacional de Convenções do Brasil), em Brasília, tem como centro das discussões nesta quarta as preocupações de produtores, entidades do setor e políticos ligados ao agro com as medidas do norte-americano.
“Madeira já temos todas as sinalizações negativas em relação ao setor, principalmente de placas prontas, de compensado, de MDF. Já houve algumas atitudes, algumas ações do governo americano na semana passada. A questão do etanol e do açúcar, que é algo que eles sempre nos exigiram muito, a entrada do etanol de milho aqui no Brasil e a gente em contrapartida querendo aumentar a cota do açúcar de cana lá, uma negociação que ocorre já há décadas e que nunca prosperou, ainda mais agora que o Brasil é um grande produtor de etanol de milho. Ou seja, pode ter alguma coisa nesse sentido, mas imagino que pode vir algo em relação às commodities. Essa é uma preocupação”, disse o deputado federal Pedro Lupion (PP-PR), presidente da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária).
Lupion disse, porém, que seria muito ruim para os Estados Unidos e também para o Brasil a aplicação de tarifaço, já que “eles dependem de muitos produtos nossos”. “A gente exporta muito para eles, principalmente na questão de minério, que é algo que tem uma preocupação muito grande. É importante assaltar, a gente fala ferro, aço, alumínio, não é agro, mas a gente usa como matéria-prima. Nós precisamos disso para os nossos equipamentos, precisamos disso para os nossos silos, para a armazenagem, para tudo aquilo que a gente utiliza”, disse o parlamentar.
Questionado sobre o oposto –de algum outro país ser alvo de tarifas maiores que as aplicadas ao agro brasileiro–, Lupion afirmou que isso abriria mercado para o Brasil.
“Se tiver um problema maior com os nossos concorrentes, para nós é bom, abre oportunidade. Nas últimas semanas, a briga comercial com a China abriu oportunidades para o agrobrasileiro excepcionais. Eles estão comprando da gente, principalmente agora, nesse período de safra. Quatro grandes multinacionais americanas deixaram de vender para a China, que, aliás, a China deixou de comprar e que estão comprando aqui do Brasil. Então, para nós foi uma oportunidade bem aproveitada. Espero que a gente consiga achar outras portas abertas aí para colocar os nossos produtos.”
O CEO da Orplana, José Guilherme Nogueira, afirmou que o etanol brasileiro é forte e que o setor não quer ser “moeda de troca”.
“A gente só não quer que o setor sucroenergético seja a moeda de troca para esse processo todo. São várias pautas, vários produtos que estão sendo colocados para discussão. Então, açúcar, etanol, o aço, enfim, vários produtos. A gente não quer ser a moeda de troca para isso. Claro que a competitividade do etanol brasileiro, ele é muito pujante, ele é forte. Por que que ainda o americano compra o etanol brasileiro? Principalmente pela intensidade de carbono. produzir aqui no Brasil através da cana, você usa menos ou você tem um poder de descarbonização maior do que o próprio etanol de milho nos Estados Unidos. Aí não é nem a questão de preço ainda, é a questão de intensidade de carbono. Mas claro que isso, sendo afetado, esse volume vai ter que ser redirecionado e a gente buscar outros mercados.”
Já o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), disse que ter ficado satisfeito com a proposta de lei da reciprocidade, por avaliar que vivemos “um certo tsunami no comércio internacional com todas essas mudanças”, e disse ser pouco provável que tenha outro país em condições de atender a oferta de café no mundo que não seja o Brasil. Minas é o maior produtor mundal de café.
“Principalmente na Ásia, onde o costume cultural do chá está mudando e o consumo de café só tem crescido. Estamos fazendo o trabalho de casa, mas neste momento é imprevisível saber. Mas a lei da reciprocidade com certeza vai somar muito, porque nós podemos dar o mesmo tratamento imediato para aquilo que vier a ser considerado uma retaliação ao comércio internacional.
Ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues afirmou na abertura do evento que há uma incerteza planetária e que, por isso, “mais do que nunca é fundamental que a sociedade se organize” para que não seja massacrada.
“Estamos vivendo um momento muito complicado no mundo inteiro. Incerteza total, ninguém sabe o que aconteceu com o mundo […] Um desmanche das instituições multilaterais do mundo. Aqui temos um momento também bastante difícil de incerteza política, com polarização ideológica de ambos os lados, ou mais de dois lados, mostrando um problema em relação ao futuro nosso, inclusive próximo.”
Já Tania Zanella, superintendente do Sistema OCB e Presidente do Instituto Pensar Agropecuária, afirmou que o desafio é grande, mas que as discussões no Senado e na Câmara dos Deputados estão em boas mãos.
O jornalista viajou a convite da Orplana (Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil)